Seca recorde na França e racionamento de água obrigam produtores rurais a se adaptarem a condições extremas

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Falta d’água potável em uma centena de municípios, lavouras perdidas, incêndios e biodiversidade ameaçada: a seca histórica que atinge a França neste verão exige adaptação da população, dos produtores rurais e ações urgentes do poder público. Com medidas de restrição do uso da água em mais da metade dos departamentos do país, agricultores se antecipam e pensam em mudar o modelo agroecológico e até abrir mão de certas espécies. Instalado há 15 anos no Loir-et-Cher, no sudoeste de Paris, David Peschard jamais viu uma situação parecida. Se por enquanto o agricultor escapou de um corte total de água nas torneiras, ele sabe que as restrições podem se tornar mais corriqueiras no futuro. “Estamos num período de restrição, e não podemos irrigar as culturas no fim de semana. O que nos obriga a trabalhar mais durante a semana para molhar tudo o que for preciso. Mas isso limitará, inevitavelmente, certas lavouras que não vão receber água suficiente”, lamenta. A União Nacional dos Produtores Rurais da França alertou que as más condições de pasto, com as altas temperaturas e a escassez hídrica, podem causar uma redução da produção de leite nos próximos meses. Ao mesmo tempo, o Ministério da Agricultura anunciou que a colheita de milho deve ser 18,5% inferior este ano, em relação ao ano passado. “Infelizmente, sem ser pessimista, há um ensinamento a tirar, o que estamos aprendendo muito lentamente. Podemos ser otimistas e achar que é apenas uma fase e que voltaremos a períodos mais úmidos. Mas, se enfrentarmos essa situação com frequência, será necessário nos adaptarmos rapidamente”, acrescenta Peschard. “O milho, por exemplo, está condenado a não mais ser cultivado na nossa latitude. E como é uma cultura feita para a alimentação animal, poderíamos, num mundo perfeito, consumir menos carne e o substituir pelo sorgo, que precisa de menos água no verão”, conclui o agricultor. Julho foi o segundo mês mais seco do ano, desde março de 1961. O déficit pluviométrico é de cerca de 84%, em relação ao normal para o período 1991-2020. Setores essenciais já são duramente atingidos, como a agricultura e a pecuária, seja pela dificuldade no plantio do milho destinado à ração animal, que consome muita água, ou pela falta de pastagens para o gado. O governo francês criou um comitê de crise para lidar com a seca e traçar um plano de abastecimento de água nas regiões onde for preciso. A primeira-ministra, Élisabeth Borne, ativou essa unidade interministerial na última sexta-feira (5), diante da "situação histórica pela qual muitos territórios estão passando", anunciou o Palácio de Matignon, sede do governo. Multas Com o nível máximo de alerta em mais de 60 departamentos, muitos franceses estão proibidos de regar gramados, lavar carros ou encher reservatórios. Os controles de restrições de uso da água se multiplicam. Em uma semana, passaram de 2.000 a 4.000 em todo o território. No mesmo período do ano passado eram 400. Uma operação organizada pela guarda ambiental do Escritório Francês da Biodiversidade (PFB) foca nos setores prioritários. Loic Obled é o encarregado das diligências numa estratégia entre as prefeituras e o procurador-geral da República. “A ideia é primeiro sensibilizar e fazer compreender a regulamentação, o que está em jogo e depois fazer controles, de maneira visual. Por exemplo, alguém que lava o seu carro, que irriga onde não é autorizado, seja uma lavoura ou um jardim público”, explica. “Não haverá fiscalização surpresa em propriedades privadas, mas quando há constatação de uma infração, pode haver uma simples advertência a até uma multa, que pode chegar a € 1.500 ou € 3.000, em caso de reincidência”, completa, valores que equivalem a até R$ 15.000. “O primeiro uso que é privilegiado é água para o consumo humano. Há restrições em outros usos para permitir que a população possa ter água para beber e para o banho”, acrescenta Obled. “No setor agrícola, uma das prioridades é dar de beber aos animais, em relação a outros usos, e esse equilíbrio é feito caso a caso, de acordo com as características territoriais”, completa. Abelhas ameaçadas Enquanto moradores de cidades menores recorrem a caminhões-pipa para se abastecer, os apicultores de Landes, no sudoeste da França, também se adaptam ao calor extremo. Várias colmeias foram queimadas nos recentes incêndios. Além disso, a seca obriga as abelhas a percorrerem vários quilômetros para encontrar um ponto de água, enfraquecendo o metabolismo de toda a colônia. Menos água também significa menos flores, menos néctar e, portanto, menos mel. No jardim de Marc Reynol, apicultor de Chécy, perto de Orléans, as cerca de 30 colmeias foram colocadas à sombra de uma sequoia. “Antes, todas as caixas de abelhas ficavam no sol e hoje procurarmos lugares à sombra, para passar os meses de julho e agosto. Aqui elas estão bem, mas ainda faz 32, 33 graus à sombra”, relata. “Temos que prever tudo. Eu instalo um grande reservatório de 100 litros de água e reabasteço regularmente, duas vezes por semana”, acrescenta o apicultor. Após a vespa asiática em 2020 e a geada destrutiva do inverno de 2021, o clima e os eventos extremos estão, mais uma vez, atacando esses insetos polinizadores, como explica Michel Cambier. “Minhas abelhas têm morrido por causa do gelo. E eu não sou o único. Percebemos que há uma mortandade maior no fim do inverno”, afirma o apicultor. “É que como as estações estão começando mais cedo, a floração começou mais cedo do que no ano passado. Para poder fabricar o mel, as colmeias têm de sair fortalecidas do inverno”, explica. Recorde de produção de sal Mas se para alguns o calor de 40 graus tem sido fonte de preocupação, outros comemoram. É o caso dos produtores de Sal de Guérande, um produto do oceano, do sol, do vento e de práticas tradicionais de extração à mão nos pântanos salgados há milhares de anos. “É excepcional. Chegam a duas toneladas de sal, o que não é nada mal, já que numa estação normal chegamos 1,3 ou 1,5 tonelada”, compara Jean-François Macé, produtor de sal. “Eu parei de recolher o sal, na cooperativa muitos colegas também, porque eles têm cotas ou não têm mais lugar para armazenar. Não sei onde vamos colocar tanto sal”, diz. Como a França, muitos países europeus são afetados por essa onda de calor e seca. A escassez de água afeta atualmente 11% da população da União Europeia e 17% do território do bloco. De acordo com os cientistas, a multiplicação das ondas de calor é uma consequência direta da crise climática. As emissões de gases de efeito estufa aumentam a intensidade, a duração e a frequência de eventos extremos.

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